Viagens | 10/12/2009
A Brasil, hoje, tem mais visibilidade externa do que na década de 40
Adelar de Oliveira

Após algumas tentativas de leitura da obra “Gato Preto em Campo de Neve”, de Erico Veríssimo, nos últimos dez anos, apenas agora – 2009 – consegui concluí-la com êxito. Não que a linguagem da obra seja difícil, mas o relato é minucioso já que aborda todos os momentos de uma viagem e, como num passeio, a gente não gosta de tudo o que vê. Então, o interior de museus, palácios e bibliotecas nem sempre são as coisas mais emocionantes desse mundo. A leitura é lenta.

Mas estou gratificado por ter conseguido chegar até o fim dessa leitura porque é possível fazer um paralelo entre os EUA de 1941, quando o país sequer havia entrado na 2ª Guerra Mundial, com o país de hoje, depois de um ”Onze de Setembro” e com Barack Obama na presidência, o primeiro negro a ser eleito presidente de um país ocidental. Para os brasileiros, comparando nossa visibilidade atual com há de 68 anos atrás, acredito que a situação melhorou bastante.

Na época, conforme o relato de Erico, ninguém sabia quase nada sobre o Brasil. Hoje o país está entre as 10 maiores economias do mundo é Penta Campeão Mundial de Futebol e a administração dos nossos dois últimos presidentes, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, tem ajudado a melhorar a imagem do país no exterior. Entretanto, do ponto de vista da infra-estrutura das nossas cidades, a comparação do Brasil de hoje com o EUA daquela época (imagina o de agora) causa-nos um certo desânimo.

Infra-estrutura

Já na década de 40 os EUA tinham ótimos serviços em rodovias, metrôs, trens de superfície, universidades, bibliotecas, comunicações. No Brasil, só agora, quando estamos prestes a sediar uma Copa do Mundo, em 2014, e uma Olimpíada – Rio 2016 – é que se fala em metrô em Porto Alegre. E as chances disso acontecer em prazo hábil são pequenas. Portanto, nesse item, avançamos pouco, é preciso ir além.

Mas, a conclusão é otimista. Nosso país demonstrou estar preparado para enfrentar as grandes crises como vimos recentemente, após a derrocada dos financiamentos imobiliários e do sistema bancário americano. Estamos melhores do que éramos e melhores do que os países ricos em alguns fundamentos da economia. Nessa mesma crise, os EUA puderam ver que não sabem tudo, também tem o que aprender com os outros povos. Porém, eles também evoluíram no ponto de vista humano: a segregação racial de hoje é infinitamente menor do que a relatada por Erico Veríssimo, na década de 40.

 “Gato Preto em Campo de Neve”

  Com informações do site: www.livrariaresposta.com.br

Em janeiro de 1941, como parte do programa de Boa Vizinhança instituído pelo governo norte-americano, Erico Veríssimo embarca no vapor Argentina para passar três meses nos Estados Unidos. Diz ao oficial da alfândega que pretende "viajar, ver pessoas e coisas" e, "se não houver outro remédio", fazer conferências.

Que país o escritor brasileiro encontra? Os jornais americanos perguntam aos leitores se o governo deve ajudar a Grã-Bretanha contra Hitler, Washington exibe uma segurança frouxa - é possível entrar na Casa Branca como "quem entra num lugar público" - e Hollywood se mostra uma "cidade murada e proibida". Os americanos desconhecem o Brasil, e Erico não se surpreende quando, para agradá-lo, alguns salpicam na conversa termos como fiesta e adiós.

A cultura e a política americanas são tratadas com humor, faro jornalístico e olho de romancista. Erico também fala da miséria e da segregação racial. Percorre o país de costa a costa e conhece grandes escritores e artistas, como Thomas Mann, Somerset Maugham, Orson Welles, Walt Disney, Bette Davis e Alfred Hitchcock.

Para seu autor, este livro é o "relato simples e objetivo de um passeio que foi, antes de mais nada, o feriado dum contador de histórias". Com a graça e a leveza típicas de um gostoso repouso momentâneo, Gato preto em campo de neve mostra um povo e uma nação pelos olhos de um romancista. Na opinião do crítico brasileiro Moysés Vellinho, Gato Preto em Campo de Neve "... é, sem dúvida, sob muitos aspectos, o melhor livro brasileiro de impressões de viagem".

Erico Veríssimo

Nasceu em 17 de dezembro de 1905 em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul. Trabalhou como bancário, balconista de armazém e farmacêutico até se mudar, aos 25 anos, para Porto Alegre. Na capital gaúcha, foi redator, diagramador e ilustrador da Revista do Globo, onde estreou como escritor com o conto "Ladrões de gado". Ganhou diversos prêmios por sua obra literária, como o Jabuti (1966), o Juca Pato (1967), o do PEN Clube (1972) e o da Fundação Moinho Santista (1973).

Tornou-se também um bem-sucedido autor de livros infantis e tradutor de obras importantes, como Contraponto, de Aldous Huxley. Erico Verissimo morreu em 1975, antes de concluir o segundo volume de suas memórias, Solo de clarineta, publicado postumamente. www.livrariaresposta.com.br

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